Historial

Abertura do Bazar a favor dos Bombeiros Voluntários

jornal_pag40“O Hermínio” de 3 de Julho de 1904, anunciava que “estamos em vésperas da abertura do Bazar”, razão pela qual alguém atribuiu ao dia 4 de Julho, o dia da grande manifestação pública à causa dos bombeiros.

O jornalista pretendia informar com a expressão “em vésperas”, que faltavam poucos dias, uma vez que foi no dia 10 de Julho, que se fez a abertura do Bazar. Este, é sim o dia de tão decisiva iniciativa, e que por tal razão consideraram a data da fundação dos Bombeiros, dia da exteriorização da maior manifestação de apoio, até, então, realizada.

A data do 10 de Julho, dia da abertura do Bazar, voltou a ser comprovada pelo jornal da semana seguinte, ou seja do dia 17 de Julho, em que no artigo intitulado “Abertura do Bazar” referia:

“Excedeu as expectativas a animação e a alegria que reinou no jardim de S. Lázaro no último domingo.

 Apesar d’um trabalho precipitado que nos últimos dias a aglomeração de centos e centos de prémios envolveu n’um completo redemoinho, o que é certo é que a abertura do bazar se fez no dia marcado, dentro da maior ordem e do mais sincero enthusiasmo, pela selectíssima concorrencia que imprimiu à vida habitual de Gouveia, certamente uma das notas mais dignas de reflexão e apreço…

A Comissão promotora de Gouveia estava representada por todas as signatárias das circulares a principiar pela Srª Condessa de Caria que, com o sr. Conde, deram entrada no jardim à hora marcada…”

Foi uma noite de duradouras recordações. A imprensa local, não deixou também de realçar a colaboração prestada ao Bazar, pela Empresa da Luz Eléctrica:

“Realmente o jardim e o bazar eram um verdadeiro encanto e entre centenas e centenas de pessoas que entraram no jardim, cremos bem, que não houve uma só que não louvasse a Empreza e não felicitasse a comissão”.

 

Os primeiros carros e a Festa do Senhor do Calvário

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Em 31 de Julho, de 1904, pela meia-noite, chegaram os primeiros carros: um com bomba e outro com o material de incêndios, destinados à Corporação dos Bombeiros Voluntários de Gouveia.

Carros de tracção animal foram adquiridos com as receitas do BAZAR, numa firma do Porto, e considerados pela “construção e acabamento de uma perfeição inexcedíveis.”

Quinze dias após a abertura do bazar, os Bombeiros já possuíam o material indispensável, contrariamente a muitas outras corporações “que em alguns casos, só após muitos anos de esforço”.

No dia 11 de Agosto, quinta-feira da Festa, o material foi exposto no jardim de S. Lázaro, conforme noticiavam os programas distribuídos pela comissão dos festejos do Senhor do Calvário, revertendo o produto das entradas, uma parte para a comissão das Festas e a outra para os Bombeiros Voluntários.

 

Recrutamento de Pessoal e Instrução

scanConcluídas as tarefas do bazar, no início de 1905, prosseguiram os trabalhos para a implementação da Corporação de Bombeiros Voluntários.

António Marques da Silva, reuniu na Fábrica Braz e Irmão, com alguns que já faziam parte e com outros que desejavam inscrever-se na corporação, informando-os que muito em breve chegaria um instrutor do Porto.

Pensou-se que uma das condições a impor para quem quisesse pertencer a tão útil corporação era de ser sócio de qualquer Associação de Socorros Mútuos. Havendo duas em Gouveia (a Associação de Socorros Mútuos dos Operários e Artistas de Gouveia e a Associação de Classe dos Manufactores de Tecidos), quem quisesse ser bombeiro, e não fosse sócio de uma delas, podia inscrever-se na que preferisse.

A Comissão não esqueceu, portanto, o recrutamento de pessoal para a corporação dos Bombeiros, e convidou um instrutor das primeiras corporações do país.

O alistamento definitivo ocorreu, no dia 19 de Fevereiro de 1905, cujo número de Bombeiros se fixou em quarenta. Decidiu-se ainda marcar uma reunião geral, para discussão dos estatutos e do regulamento, que haviam de ser oportunamente legalizados, e cujos projectos já tinham sido apresentados na primeira reunião.

Em meados de Maio, chegava o instrutor dos Bombeiros Municipais do Porto. À uma hora da tarde, acompanhado por um grande número de rapazes, que faziam parte da corporação, montados em bicicletas, chegava a S. Lázaro, António Ferreira, o primeiro instrutor da corporação do Porto, cuja entrada foi anunciada por várias girândolas de foguetes, que esse grupo de rapazes tinha adquirido por subscrição aberta entre os futuros bombeiros de Gouveia.

O instrutor tinha à sua espera na estação de Gouveia, José Fraga, do jornal “O Hermínio”, José Rodrigues Frade e Arnaldo Hortas.

À noite, foi apresentado oficialmente a toda a corporação, numa reunião realizada no Teatro, por António Marques da Silva, Presidente da Comissão Iniciadora, “e a quem mais se deve este mais importante melhoramento”.

Foram depois designados os dias e as horas de trabalho para a instrução. Passado, pouco tempo, o instrutor já declarava que “…rarissimas vezes tem encontrado um grupo tão unido e tão perspicaz, deixando-o vivamente surprehendido pelo ardor com que se dedicam à nobre missão, procurando à porfia entre elles progredir nos seus estudos e nos seus trabalhos.”

O primeiro exercício público realizou-se, no dia 28 de Maio de 1905, nas fábricas de José Augusto Belo. “Ao local concorreu bastante gente, e, dentro dos edificios viam-se quasi todos os principaes cavalheiros mais considerados n’esta villa, e que a cada momento manifestam pela corporação dos bombeiros voluntários a mais sincera sym-patia”, uma vez que, a Corporação dos Bombeiros continuava a galvanizar toda a população.

A instrução durou até meados de Junho, tendo o instrutor sido alvo de uma despedida afectuosíssima, por entre as manifestações mais íntimas de saudade, por parte da corporação. O inspector-geral do Porto escreveu depois uma carta, toda ela cheia das melhores impressões para “a nossa simpática e tão estremecida corporação”.

De modo a ficar devidamente organizada e estruturada, a eleição dos primeiros graduados, ocorreu, nos princípios de Junho de 1905, sendo votados para:

Inspector Geral – António Marques da Silva.

Sub-Inspector – Pedro A. Botto Machado.

1º Comandante – José Augusto d’Almeida Fraga.

2º Comandante – Cândido Ribeiro do Amaral.

 

 

Primeira grande missão

Apesar de ainda não ter sido realizada  a inauguração formal, a completa instalação prosseguia, desde a fundação. Os Bombeiros iam dando provas em nobilíssimas missões, cuja “estreia” ocorreu, no dia 3 de Dezembro de 1905.

“Na madrugada desse dia, dado o alarme na torre da Igreja de S. Julião, às 5 horas e um quarto, e dito que o incêndio era na fábrica de lanifícios da firma Estevão Ubach, no limite de S. Paio, a 4 kms de Gouveia, poucos minutos depois corria a maioria da corporação com a bomba e o carro de material. Tendo o incêndio principiado antes das 4 horas da manhã, quando a corporação chegou já tinha abatido o telhado e todos os pavimentos, não da fábrica, mas da habitação encostada à fábrica e que comunicava com ela, por dois portais interiores e escada…”

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O povo de S. Paio muito sensibilizado com a actuação dos bombeiros de Gouveia, enviou a seguinte mensagem:

“Il.mo senhor Inspector da Corporação de Bombeiros Voluntários de Gouveia.

Há factos, que tão nobremente se evidenciam e tão intensamente nos sensibilizam, que não podemos deixar de registá-los e expandi-los; tal é a maneira como eles actuam em nosso espírito. Por isso nós, os abaixo assinados, imensamente impressionados pela maneira heróica como se houve a briosa e benemérita corporação dos Bombeiros Voluntários de Gouveia, de que V. Exª é mui digno Inspector, por ocasião do violentíssimo incêndio que destruiu a casa de habitação do nosso particular amigo João do Frade Respeita, tomamos a liberdade de, por este meio, apresentar a V. Exª o testemunho sincero das nossas felicitações, patenteando-lhe em quanta consideração e apreço temos essa corpo-ração, credora da nossa eterna simpatia.

A sua estreia (mau grado nosso, somos coagidos a expressá-lo) foi brilhante como brilhante e sublime é a missão que tem a cumprir: – nem outro tanto havia a esperar d’essa pleiade de rapazes, vergontea da mocidade ilustrada de Gouveia que pode orgulhar-se em possuir tão nobre instituição, sem dúvida a pérola do mais fino quilate que tem engastado no seu brazão sempre glorioso. Queira pois Vª Exª aceitar os votos fervorosos da nossa simpatia e admiração, louvando e bendizendo, mais uma vez, a dedicação e heroismo de tão prestável e útil instituição.

Deus Guarde V.Ex.ª.

S.Paio, 14 de Dezembro de 1905.

 

Pe. João António Gaspar

Manuel Rodrigues dos Santos

Joaquim Ubach Dinarés,

Manuel Pereira Nina Junior

Gerardo Mendes Ferrão

Álvaro Neves da Costa Chaves

António Joaquim F. Cabral.

 

Primeiras instalações próprias

quartel_pag59A escritura do novo Quartel, situado na Av. Marechal Gomes da Costa, hoje Avenida dos Bombeiros, realizou-se no dia 11 de Dezembro de 1933, mas só, em finais de 1935, a Associação pode abrir finalmente as suas portas, depois da almejada transferência dos Correios.

Nesta fase da reorganização, surgiram também os mais diversos contributos, acompanhando a grande dinâmica da Comissão.

Joaquim de Sousa Belino ofereceu um automóvel Excelsior destinado à venda na sucata.

Manuel Maurício Glória ofereceu um aparelho de telefonia.

João Carlos Ferreira Ascensão ofereceu um clarim através de uma subscrição, que promoveu, tendo o mesmo colaborado na confecção da caixa de medicamentos, para servir de ambulância do futuro pronto-socorro.

Um grupo de Bombeiros organizou diversões e tômbola no Jardim S. Lázaro, destinando-se o seu produto à aquisição de fardas de serviço.

O Conde de Vinhó e Almedina cedeu a Casa da Praça, da Senhora Marquesa de Gouveia, para a realização de um baile e interessando-se pela concorrência de mui-tas pessoas das suas relações e de elevada posição social que honraram a festa, assim como tomou a seu cargo o serviço de buffet, sem dispêndio para os bombeiros.

João Alçada ofereceu meia libra em ouro que foi leiloada na mesma festa.

Realizaram dois bailes de Carnaval com muito brilho, contribuindo para desenvolver a sociabilidade e angariarem receitas para a Associação.

 

Primeira  auto-ambulância

De dia para dia, constatava-se, já desde 1946, que era muito urgente adquirir uma ambulância, tanto mais que nenhuma existia em Gouveia, nem nos concelhos limítrofes, com grande prejuízo para os habitantes.

Havia necessidade de transportar os doentes de forma adequada, ou seja, através de uma ambulância.

Congregaram-se vontades, recorrendo-se à organização de festivais, de gincanas de automóveis, de bailes, de verbenas no pátio da Câmara, de récitas, de jogos de futebol…

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A vinda a Gouveia, do Sport Lisboa e Benfica, para defrontar um misto do Sporting e do Gouveense, cuja receita líquida do jogo no valor de 5.224$20, reverteu a favor da ambulância, constituiu um grande acontecimento local.

Em Maio de 1950, chegaram, a esta vila, os componentes da turma benfiquista. Alguns milhares de pessoas encheram o campo de jogos do Farvão, “não com o sentido de ver em um desafio renhido, mas para verem actuar o Benfica, em jogadas de primor, esquematizadas no terreno, geometricamente delineadas”.

Ao Benfica foi ofertada a Taça, que em devido tempo, João Lopes da Costa Alçada, tinha concedido a esta Associação. Mas só, em 1950, foi possível concretizar tal ensejo, pela importância de 82.000$00.

“Ambulância modelo que era um primor de construção”, de marca CHENARD WALKER, matrícula EA-15-93 foi comprada ao agente de Coimbra. A auto-ambulância, “com duas camas, cómodas e higiénicas”, teve por madrinha D. Maria Borges, esposa do Presidente da Direcção.

 

Fanfarra

Untitled1A primeira tentativa para a criação da Fanfarra decorreu, em 1969/70, através da realização de um ensaio com caixas emprestadas pela ex-Legião Portuguesa local.

A experiência suscitou o redobrar do entusiasmo, para que depois um grupo, em 1971, decidisse congregar esforços, tendo em vista a criação da Fanfarra dos Bombeiros de Gouveia.

Os ensaios foram dirigidos por Armando de Jesus Viveiro, Chefe da Fanfarra, desde a fundação até à passagem ao quadro honorário. A iniciativa “de um punhado de jovens, que por nada, querem viver em vão” mereceu a concordância dos corpos Gerentes e da adesão da população através de donativos, para a aquisição dos instrumentos.

A inauguração ocorreu no dia da comemoração do 68º Aniversário dos Bombeiros, em 7 de Julho de 1972, que “percorreu as principais artérias de Gouveia, com o ruído dos seus tambores, dando brilho e alegria a uma festa, que afinal era de todos”.

O Congresso dos Bombeiros realizado, em Viseu, no ano de 1972, ainda está na memória dos fundadores, por ter sido a primeira saída da Fanfarra.

 

NOS ÚLTIMOS TEMPOS

4A sua vitalidade e dinamismo dos últimos 20 anos, está na memória de todos nós, perpassando a nível humano, material, e nos mais diferentes sectores de actividade, que lhe estão adstritos.

A Zona geográfica operacional abrange a vasta área que vai de Vila Franca da Serra a Paços da Serra.

A exiguidade das instalações desde há muito que se fazia sentir, optando-se, pelo alargamento da estrutura existente.

Os trabalhos começaram, em 1989, com estagiários, que frequentavam o curso de pedreiro, no Centro de Emprego de Seia, com a dupla finalidade de se qualificarem profissionalmente, e ao mesmo cumprirem uma função social para com a associação de Bombeiros.

Interrompidos os trabalhos, o projecto da ampliação foi adjudicado, em 2001, concluindo-se as obras, em meados de 2003, como as fotografias documentam.

O engrandecimento, nos últimos tempos, por tão nobre causa, vai também transparecendo nos próximos capítulos, através da abnegação de muitos homens e mulheres, com farda e sem farda, em actos de coragem e do altruísmo, mas também a nível dos equipamentos e das diferentes actividades sócio-culturais.

capa_totalInformação retirada do Livro de José Guerrinha – Bombeiros de Gouveia (1904~2004)

 

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